terça-feira, 9 de outubro de 2012

Gérbera

Na estação, enquanto a aguardava embarcar em sua vida, sorria-lhe também o viço daquela gérbera quase vermelha.
Véspera de primavera, promessas de vida inteira.
Abriu espaço na casa pequena, comprou mais lenha pro frio que ainda fazia lá dentro.
Na lareira, o fogo quase matava o medo de que tudo fosse em vão.
Amor dos tempos de criança.
Amor do tipo família.
Do tipo cabana.
Amor do interior.
E do interior vinham zêlo e apego a quase tudo que havia pra ser cuidado, incluindo a flor mais que cor de laranja.
Durante aqueles anos, a gérbera fora várias vezes ressuscitada. E vingou, todas aquelas vezes.
Dependia de sua vigília, então, ela cuidou.
Não faltou calor do sol, refresco da chuva.
Mas, como num piano a quatro mãos, carecia de cuidado em dobro, em dupla.
Não chegou a rezar pra que só a morte lhes separassem, mas tentou, sim, mais um 'pra sempre'.
Era o cansaço de suas esperanças cobrando o desejo de permanência, de constância.
Seguia nutrindo a fé, sem, no entanto, revolver a terra onde morava a flor.
Vez em quando ela voltava linda e isso deveria bastar.
E até bastava.
Mas faltava o outro par de mãos.
Faltou o comprometimento da mistura.
Faltou o medo de perder a semente.
Sobrevivente de quase cinco invernos, a gérbera quase vermelha, como que pedindo licença, assume, então, a fadiga por todas aquelas chances que lhes dera, e sucumbe.   
Renúncia.
Despedida.
E desembarca suas pétalas no outono, a última estação de sua vida.

(Stella Marla - 09Out2012)

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Roupa de Domingo

Ela abre o armário e, cuidadosamente, escolhe roupa de passeio.
Era um domingo entre tantos e como todos.
Dia de igreja.
De tomar sol na praça.
De rever as pessoas de sempre.
A monotonia aguardada.
Entretanto, este domingo lhe fora entregue em papel para presente.
Ela estava diferente da semana passada.
A precisão do espelho refletia outra.
Não pelo casaco vermelho que se atreveu provar.
Nem pelo cabelo, que deixara de enrolar à noite.
Mas algo estava diferente.
‘Incrível’, pensava.
Depois de tantos dissabores e desafetos...
Constatava que os últimos acontecimentos não lhe mexeram só por dentro.
Os reflexos faziam questão de acusar nuances jamais testemunhadas.
Como se fosse o primeiro encontro.
Como se fosse o primeiro encanto.
Como se fosse o primeiro amor.
Como se nada, antes, tivesse havido.
Se pudesse, usaria roupa nova neste domingo.
Ou aquela roupa que combina cores sentidas com sapatos leves.
Ela vai deixar que seus cabelos, hoje descomprometidos, esbocem sua alma que flutua, e encaixará à orelha uma flor da pitangueira que abraça sua janela.
E, vestida de domingo, vai dançar Sinatra no quarto ensolarado antes de se mostrar ao dia.
Vai rodopiar abraçada a um vestido antes esquecido, de tão vivo que é.
E junto à roupas, cabelos, sapatos, espelho e música, brinda ao velho-novo sentir, o mesmo para quem um dia disse ‘adeus’.
Porque o medo, há certo tempo, era o de nada mais sentir.
Há uma semana há novos sons e tons invadindo sua janela.
Há uma semana ela espera, como nunca, aquele dia chegar.
O dia de ir à igreja.
De tomar sol na praça.
Para vestir roupa bonita.
Como se recém ensaiasse um encontro.
Um encanto.
Um amor.

(Stella Marla - 27Jul2012)

terça-feira, 3 de julho de 2012

Os Trilhos do Trem

Cruzamento de rotina.
Perigoso, no entanto.
Músicas num volume alto impediam que ela mensurasse
o risco que corria ao passar por ali.
Porém, quando despertava para a importância daquele
milésimo de segundo gasto na travessia, estremecia.
Intrigante, entretanto, era o fato daquele medo lhe proporcionar fascínio.
Sim, era fascinante contemplar duas linhas paralelas
tomando forma de um ângulo absurdamente reto quando ela as invadia,
ainda que por quase nada de tempo.
Invasão.
Sintonia.
Desafio.
Intimidade.
Tentação.
E, então... racionalidade.
Tudo tão adverso quanto a formação de um ângulo reto.
Instantes tão confusos e, ao mesmo tempo, completamente simplificados.
Havia, sim, o entendimento de que deveria ser apenas parte do hábito.
Mas havia, também, a compreensão de que manter aquele hábito pudesse resultar num vício estranho, misto de gôzo e dor.
Não.
Urgência de outra rota.
Da velha rota.
Voltar às vias que a protegiam daquele grito produzido pela máquina
de ferro, que, impiedosa e atrevidamente, rasgava seu caminho.
Música em volume ameno, agora.
Permanência mínima naquele cruzamento inevitável e que, invariavelmente, ordenava: 'pare, olhe, escute!'
Haverá, sim, outros casamentos dos trajetos com suas linhas.
Não havendo o que temer, desnecessários serão os desvios para outros atalhos.
Todavia, aquela velha e conhecida via suscita simular abnegação e constância, sempre que, cálida e perplexa, ela trespassa os trilhos do trem.

(Stella Marla - 03Mai2012)

domingo, 8 de maio de 2011

Simbiose

Não que ela não a tivesse amado.
Amou.
O que realmente atormentava seus sonhos, era aquela mesma sensação que vez ou outra sufocava a alma.
Não que ela não quisesse ter vivido tudo aquilo.
Sabia do risco, mas se entregou a cada pequeno momento.
Eram exatamente aqueles momentos os algozes de sua memória quase infalível.
Sem entender porquê tudo voltava tão vívido, procurava manter à certa distância qualquer ameaça de desestruturar as trincheiras que havia construído ao seu redor.
Noites que nasceram no verão, sobreviveram ao outono e morreram no inverno.
Antes mesmo que a primavera pudesse oferecer as flores, falece o maior e melhor caso de amor de sua vida.
Tudo fora minimamente planejado. Não por elas. Pelo que tinha de ser.
O leve toque nada acidental das mãos. Os olhares vorazes e arrebatadores. A dança: o corpo, instrumento de sedução.
Palco montado.
Teatro mudo. O que mais precisava ser dito?
Alvo da sedução, a seduzida havia sido caçada, marcada, jurada de amor. Era apenas uma questão de tempo, pouco tempo.
Encaixe perfeito de corpos e bocas.
Necessidades de pele e alma satisfeitas. Limites desfeitos. Curvas e medos nus.
Obstáculos imensos foram, simplesmente, desprezados.
O poder que o amor lhes concedia, tornava-nas ainda mais fortes, quase imbatíveis.
Morreriam juntas, fosse essa a solução.
Havia a distância física imposta pelos rumos familiares da outra.
Viagens longas lotadas de saudade desbravavam fronteiras que mais pareciam maquetes.
Lua.
Frio.
Estrelas.
E as noites se tornavam verdadeiros passeios mágicos com destino ao encontro mais feliz.
Na estação, olhos se buscavam, braços se encontravam. Almas juntas.
Na espreita, o resto do mundo.
O que era informal, tomou forma.
A brincadeira pueril virou romance maduro, caso sério.
Não havia maneira de conjecturar a união de almas tão perfeitamente sincronizadas. Não dessas.
Foi quando elas espiaram os bastidores.
E viram rostos desfigurados. E traços distorcidos. E olhares maliciosos.
Ouviram cochichos e risadas carregadas de sarcasmo.
Constataram gestos invejosos, movimentos de repulsa e falsa moral.
Invisível àqueles pares de olhos brilhantes, o ciúme circunvizinho as patrulhava silenciosamente.
A mancha escura do julgamento alheio invadia lenta e ardilosamente, espalhando-se pelas estrias das cortinas, como azougue fugidiço.
Impiedosamente, as coxias despiram-se das máscaras e investiram no açoite às amantes.
Desmembramento.
Dor.
Abstinência.
Privação.
Simbiose desfeita.
Foi depois disso que as coisas mudaram.
Não que não tenha amado novamente.
Sofreu de novo.
Mas a intensidade de tudo que veio depois, foi atenuada, arrefecida.
Ela sabia que nada mais seria igual.
Nem com os outros.
Nem consigo mesma.
Ainda assim, as lembranças... Preferia tê-las.
Lidava com a ruína de um modo cândido: a candura ainda lhe era peculiar.
Entretanto, em suas preces implorava que fosse poupada de revê-la.
De pensar que isso pudesse acontecer em uma esquina qualquer, sufocava.
Todos os verões dos anos seguintes foram marcados pelo embaraço da dor com a saudade.
Inconscientemente, evitava, fugia das noites quentes e estreladas.
Procurava lugares menos frequentados, ambientes sem grandes atrativos, onde não corresse grande risco de reencontrá-la.
Arcou com essa escolha por muitos anos.
Até que, numa noite inofensiva, num bar qualquer, alguém gesticulava no balcão.
Sim, era ela, e fora reconhecida pelas mãos.
As mãos, assim como todos os outros detalhes, nunca foram esquecidas.
Havia maneira de voltar e sair despercebidamente.
Decidiu ficar.

(Stella Marla - Mar2011)

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Meia-Luz

O velho homem se sentou em frente à lareira.
Era fim de tarde fria.
A sua frente, várias lascas de lenha que ele mais cedo cortara: sabia que a noite seria mais gelada do que já havia sido o dia.
Estava melancólico, mas isso já se tornara traço pessoal. Tinha alguns anos que vivia só e seu presente era lembrar do passado.
Enquanto ajeitava os torrões de brasa, enxergava com nitidez fragmentos vivos de momentos intensos, como se estivesse
revivendo-os.
E assim eram seus dias: seguidos de noites gélidas e memórias.
Havia preparado o seu copo de vinho tinto seco: o mesmo que o aquecia há vários invernos.
Seu rosto trazia marcas profundas. Nem eram rugas. Apenas mostrava um aspecto áspero de tristeza e saudade, e de coisas e sentimentos que não sabia explicar.
Mesmo que nunca mais quisesse vivê-los, não tinha tarde fria que ele naturalmente não recordasse.
Sentia que já havia vivido o bastante. Talvez o corpo não demonstrasse isso: era um homem velho, mas com vigor e força. Faltava fibra apenas no coração.
Fizera escolhas.
Ao longo desses anos, foram estas que pesaram: parte fê-lo sofrer.
Era culto. Falava bem. Lia muito.
A casa era simples e pequena. Limpa. Clara. Única no meio de um espaço retirado da zona urbana, como ele fizera questão que fosse.
Exigia o silêncio como parceiro de quarto. Apenas o cão mestiço o acompanhava. E o espreitava. Sabia quando o dono não estava ali e respeitava aquele horário diário.
A rotina havia se tornado uma hóspede endividada: não desocupava a vaga que tomou.
Enquanto a fogueira alastrava, o velho viajava pelos tons alaranjados das labaredas.
Vinham-lhe lembranças claras e todas as suas sensações.
Entre um gole e outro que extraía da taça, a memória revolvia destroços. Era nítida a última coisa que fizera antes de abandonar a casa na qual vivera por tantos anos: a carta inacabada, deixada sobre a escrivaninha. Sua mão trêmula lhe impediu de finalizar sua despedida e, por isso, a deixara assim mesmo.
A casa... branca, cheia de luz e alegria.
Vozes a inundavam e crianças não permitiam a entrada do silêncio.
As festas de aniversário, as bodas e as comemorações de fim de ano eram aguardadas com expectativa pelos seus seis netos, que seus três filhos lhes deram.
Esposa, teve uma. Uma razão para amar a vida e tudo que aconteceu depois que a conhecera. Nunca mais sairia da sua mente a fisionomia daquela mulher de traços finos, pele branca. Seus cabelos castanhos, arrumados, contornavam seu rosto oval e combinavam com o tom da tez.
O velho homem não suportava lembrar tanta beleza. Doía sempre e mais. Era coisa que envolvia pele, entranha, dentes, calor, tremor. Pensava: que Deus é este que me pôs o mundo nas mãos e, bruscamente, delas o arrancou?
Neste momento, caía uma lágrima, mistura de saudade com raiva.
E tragava seu vinho, que aliviava a garganta amarrada em nó.
Os pensamentos, desarrumados, voltavam.
Dessa vez, enxergava seus pés. Calçava sapatos pretos, quadrados.
Voltara para casa mais cedo, depois do dia mais difícil no escritório.
Abrira a porta de entrada.
Largara a maleta no chão da sala e percorria, silenciosamente, o seu tapete vermelho.
Não esperava encontrar a mulher.
Naquele horário, talvez a empregada estivesse terminando seus afazeres. Então, serviu-se do scotch e se sentou no sofá.
Descalçou os sapatos e afrouxou a gravata.
Sentiu a visão embaralhar depois do segundo gole, e lembrou que, por causa de tudo que acontecera durante o dia, não tivera tempo para o almoço.
À procura da serviçal para que lhe preparasse algo, estranhou o silêncio perdurando e uma única luz acesa ao final da escada.
Com a visão turva e um tanto trôpego, subiu as escadas.
Pelo corredor, passa pelo quarto de hóspedes e, próximo ao seu, ouve um sussurro que pensa ser produto do efeito etílico. Mas continua andando, perseguindo a porta do seu aposento, quando se depara com ela entreaberta.
Silenciosamente e confuso, espia naquele vão e vê o que seria determinante para eternas tardes frias de lembrança.
Neste momento, mais uma lágrima lhe rola a face. Acostumado com esta rotina, o cão mais uma vez o espreita.
O velho homem agora se inunda de um sentimento ruim, algo que jamais imaginara sentir por aquela mulher, tão amada e desejada desde o primeiro dia em que lhe fitara.
Mãe de seus filhos, estava convencido de que a felicidade existia e lhe batera cedo à porta. Nada no mundo poderia ser maior e mais forte do que tudo o que tinha junto dela.
O amor, as conquistas, a família, o alto padrão de vida e o respeito que mantinham entre todos.
Ainda descalço, volta, sem fazer ruído, desce as escadas e tenta aprontar o bilhete de adeus. Em pedaços, calça os sapatos e sai, para nunca mais voltar.
Outro gole de vinho e a noite cai, inteira e impiedosa.
O velho homem, cambaleando, abandona a lareira e persegue, na escuridão, a porta de seu quarto.
Jamais haverá, naquela casa, meia-luz que lhe cause surpresa.


(Conto classificado entre os 10 melhores no 8° Concurso de Contos do Instituto Popular De Arte-Educação/PoA - Dez2009)
Deusa Lua

Deusa Lua... cadê teu sorriso prata,
que não enxergo tem um tempo?
Estará por trás das nuves
que nublam meu céu?
De certo privilegia outros céus,
antes de definitivamente voltar a enfeitar o meu....

(Stella Marla - Ago2007)












Fugidia

Fui embora de mim,
para nunca mais voltar.
Quem de mim fugiu,
fez o envase de minha essência,
enterrou as sobras.
Partiu em busca das ilusões
amontoadas entre um outono e outro.                                           

Quem ficou,
nunca ousará voar.


Fui embora de mim,
para nunca mais morrer.
Fui embora
e não quero, não queira me rever.
Juntei as farpas
da coragem que restou
e, por nada a perder,
desancorei, despenquei...
saltei do topo da dor.

(Stella Marla - Jun2007)
Apenas

Eu não queria ser apenas...
Um rumo pro seu olhar
Um acaso em sua vida
Um encontro por acaso
Um alguém entre tantos
Uma simples lembrança
Uma tola brincadeira
Uma amizade sincera
Alguém com quem contar
Um ombro pra chorar
Um momento de muitos
Uma ilusão sofrida

Uma diversão em sua vida
Uma pessoa querida
Um sonho sem nexo
Algo não fixo
Testemunha do seu sorriso
Vítima do seu charme
Outro alguém que sofre
Quem quase morre
Quem chora de dor
Quem odeia o amor
O seu caminho contrário
Um beijo imaginário
Algo sem compromisso
Um caso qualquer
Uma alternativa
A última escolha
Quem sempre lhe quer
Quem suporta seus lamentos
Quem odeia seu sofrimento
Quem adormece pensando
Quem te ama te olhando
Quem imagina brincando
Quem sonha se iludindo
Quem se ilude sonhando
Quem te ama sem troca
Quem troca tudo pra te amar.

(Stella Marla - 10Out1988)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Soneto de Amor

"Por que não amar?
Não amar, para não sofrer.
Por que não sofrer?
Não sofrer, para não morrer.
E por que não morrer, se é de amor?"

(Stella Marla - Abr1994)