quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Comiseração

Era da cócega que ele sentia no pé, que ela tanto lembrava.
Da sua gargalhada solta.
Do olhar pueril contrastando com suas mãos firmes.
Lembrava do soluço repentino que a fazia rir descontroladamente.
Das músicas mal decoradas.
Das piadas bobas.
Dos arremedos.
Nem tanto do sexo, que, sim, era incomparável,
mas do beijo, que os fundia num só.
Era da intensidade perfeitamente encaixada, que ela lembrava.
Era dos seus olhos dentro dos dela,
do suor misturado
dos ruídos
dos pingos de chuva batendo à janela
da desnecessidade das palavras
das horas que passavam despercebidamente
do silêncio absoluto do lado de fora...
era dos detalhes, que ela lembrava.
Nada pesava.
A não ser a falta.
A saudade absurda.
A abstinência.
Tremura.
Insônia.
Insaciedade.
Inapetência.
Foi quando viu no espelho o reflexo da dor.
E o que a fazia sorrir, agora doía na pele, na alma.
Lembrou de João Bosco, que, impiedosamente, cantou:
'... bate é no champanhe que borbulhava na sua taça
e que borbulha agora na taça da minha cabeça...'
E agora? - perguntava a si mesma
ao olhar as próprias mãos completamente vazias,
mas ainda com a forma do seu corpo.
Ao olhar sua cama completamente vazia,
mas ainda com a forma do seu corpo.
Ao olhar o próprio corpo completamente vazio,
mas ainda com a forma do seu corpo.
Quando se indagava sobre o fim de tudo,
entendia bem que não era uma questão de fim,
mas de completo descontrole sobre a força daquilo que independia deles.
Talvez não tivesse de ser.
Mas foi.
A hora era exatamente essa: a da comiseração.
Porque ainda bebia naquela taça onde ele pôs sua boca.
Porque ainda sentava àquela mesa daquele lugar
onde trocaram olhares e gargalhadas.
Porque ainda ouvia o seu sussurro perdido pelo quarto.
Porque ainda sentia o arrepio desfilando por sua pele.
E pele tem memória.

(Stella Marla - 05Dez2013)

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